purple and blue light illustration

O homem de branco

— Mãe? Acho que tem algum espírito ... Alguma coisa lá em casa.

— Ah é? – Eu me sento na cadeira entregando o café da minha filha e bebendo o meu. Sabendo que as situações de sensações, visões, audições sobre anjos e demônios deixam coitada morrendo de medo. – O que foi?

— Semana passada estava guardando as roupas no guarda-roupa depois do trabalho, aí quando saí do quarto e quando passei na frente do banheiro, eu vi uma silhueta de um homem. Parecia até que tinha um homem lá. Se não fosse o jeito que tava, eu teria achado que era uma pessoa.

— Como ele era? Ele falou alguma coisa?

Dani fez uma pausa, engolindo em seco.

— Era baixo, estava todo de terno, mas parecia ser uma roupa uns dois números maior que deveria ser. E ele usava um chapéu, tipo de vaqueiro, sabe? E apesar de ele estar no escuro porque já era noite e a luz estava apagada, eu consegui ver — de alguma forma que até agora eu não sei explicar — que a roupa dele era totalmente branca. E ele tava BEM na frente da porta do banheiro. Sabe como se ele fosse um segurança? E fica na porta pedindo documento pra entrar? Era assim que ele tava, bem de frente pro corredor, olhando pro chão do lado de fora. E ele olhava pra baixo, sabe?

— Sentiu alguma coisa quando passou por ele?

— Medo! Mas fingi que não vi. Só segui andando.

O silêncio se prolongou na cozinha. Olhei para as minhas mãos em volta da xícara quente, pensando se deveria ou não alimentar aquilo. Mas o arrepio na minha nuca era antigo.

— Eu conheço esse homem, Dani. Eu já vi.

— Como assim?

— Uma vez quando você tinha uns 2 aninhos, eu tava lá na casa da minha mãe te dando banho na bacia lá no quintal que tem atrás da casa. A gente tava sorrindo, brincando e eu nem tava prestando atenção em nada. Aí olhei pra cima... e vi um homem desse mesmo jeito que você disse. Baixo, todo de social, usando terno e chapéu, roupa toda branca. Ele olhava pra baixo então eu não vi o rosto dele. Achei que era algum amigo do meu pai que não queria me assustar chegando mais perto. Aí perguntei: “Oi? Quer falar com quem?” – Mas ele não respondeu. Nem sequer se mexeu. Aí eu me levantei e andei pra ir até ele gritando mais alto. “Moço? Tá perdido?”

Reparei minha filha segurou mais forte a xícara de café.

— E ele?

— Virou de costas pra mim sem levantar a cabeça e saiu andando, aí eu fui atrás dele com medo porque se só tinha eu na casa, como ele tinha entrado? O portão tava fechado. Como ele entrou? Pulou um muro alto daquele e não sujou nem um pouco aquela roupa branca?

— Uhum...

— Então ele entrou na casa, e eu olhei pra trás pra ver se você tava bem sozinha na bacia. A bacia era pequena e rasa. Não corria o risco de acontecer alguma coisa então eu te deixei lá e fui atrás dele. Dentro da casa eu ouvia os passos, ele não andava com pressa, sabe? Ele andava normal. Sem pisar pesado.

— E aí?

— Aí saí pela porta da frente e ele não tava lá. A casa era pequena, não tinha onde ele se esconder e eu ouvi os passos dele do lado de fora. Aí corri pro portão, abri e nada dele. E você sabe, ali antes de chegar na casa da sua vó não tem nada. É um caminho longo sem lugar pra se esconder até a estrada. E ele não tava em lugar nenhum. Quem estava vindo era o tio Luiz e eu perguntei pra ele se um homem todo de branco tinha passado por ele.

— E ele disse o quê?

— Que não. Que não tinha visto ninguém o caminho todo. Aí eu expliquei o que aconteceu e ele disse que era impossível alguém estar vestido daquele jeito ali. O calor ia fazer a pessoa desmaiar rapidinho e que ninguém na região se vestia daquele jeito. O lugar era simples, interior. Ninguém lá se vestia assim. Nem pra ir na igrejinha de noite.

Os braços de Dani estavam visivelmente arrepiados.

— Aí a gente voltou correndo pra casa pra ver se você tava bem, se o cara tinha conseguido se enfiar em algum lugar pra te pegar enquanto eu procurava por ele, mas você tava bem, brincando com os patinhos na bacia, não parecia que tinha visto alguém ou alguma coisa. E como lá é bem normal e todo mundo via coisas que os outros não viam, ele nem se preocupou. Falou que era algum espírito que tava passando e quis parar pra ver uma mãe brincando e dando banho na filha.

— Acredita nisso?

— Não sei... não sei. Foi estranho, sabe? E foi exatamente o cara que você viu. Do mesmo jeitinho.

Dani engoliu em seco, deixando a caneca já fria sobre a mesa. O silêncio que se seguiu na cozinha não era mais o de duas pessoas conversando; era o silêncio de quem acabou de acender uma luz em um quarto escuro.

— Mãe... — Ela sussurrou, a voz trêmula, os olhos fixos no corredor que dava para a área de serviço atrás de mim.

— O que foi, Dani? — perguntei, sentindo meu estômago congelar.

— O terno dele... parecia dois números maior, né?

— Sim. Sobrava pano nos ombros. Por quê?

Dani não respondeu. Ela apenas apontou com o dedo trêmulo para o chão do corredor. Na luminosidade fraca da tarde que caía, a barra de uma calça de tecido branco, larga e perfeitamente passada, acabara de estancar bem na entrada da cozinha. E, com um som macio e quase imperceptível de couro velho, os sapatos giraram na nossa direção.

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