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Memórias de um aluguel

Quando eu tinha 13 anos, minha mãe e eu morávamos em uma casa que o locatário dividiu em duas pra poder alugar. A casa era grande, um quarto razoável, uma sala imensa com cozinha no conceito americano e um banheiro muito grande. Tinha também um terreno enorme com árvores infrutíferas. E um muro cercava tudo, com uma única entrada. Ainda tinha um quintal retangular onde a gente colocava as roupas pra secar no varal. O quarto tinha um tapume de madeira que dividia as duas casas. Ele morava na casa ‘da frente’ e a gente na ‘dos fundos’.

O proprietário me causava um pouco de incômodo. Ele era muito grande, muito alto, com um bigode branco farto embaixo do nariz. A mão dele era imensa, de dedos gordos, sempre com um cigarro entre eles. Meu maior medo eram as moscas que caminhavam pela sua cabeça careca, explorando o corpo dele — e principalmente os pés, até no bigode —, enquanto ele permanecia estático. Era como se os insetos não estivessem pousando em um homem, mas em um pedaço de mobília esquecido.

Minha mãe por outro lado, não se incomodava com essas coisas, mas com o fato dele SEMPRE jogar uma asinha pro lado dela. Elogios, comida, frutas, chocolates, convites para um café na casa dele ou na nossa. Minha mãe sempre impunha limites e dizia que não estava interessada, mas graças ao portão barulhento que tinha pra entrar na propriedade, ele ouvia TODA VEZ que entravámos. Nenhum produto usado naquela dobradiça era capaz de fazer o portão parar de gemer quando alguém passava por ele.

O que era conveniente para o galanteador de quinta categoria: o portão mal começava a gemer e ele já aparecia na porta, com um cheiro de cigarro lascado, aqueles pés gordos descalços e suas amigas inseparáveis — as moscas, claro —, obstinadamente tentando encantar minha mãe. No início era ok, mas depois virou uma perturbação. Durante dois anos, ao menor barulho do portão, aquele homem aparecia e segurava minha mãe em conversas moles por 20 ou 30 minutos. Debaixo de sol ou chuva, ele não via problema em fazer isso. Minha mãe odiava. A gente tentou dar uma solução para aquele portão velho, mas nada adiantava; ele sempre vinha.

Ele não era uma má pessoa; era solitário, solteiro há muitos anos e já estava velho. Não entendia como aquelas atitudes incomodavam minha mãe, chegando a configurar um assédio. Ela tentou várias vezes fazê-lo entender, porém ele simplesmente não compreendia ou não se importava.

Uma semana antes de tudo acontecer, o comportamento dele cruzou uma linha que nos deixou em alerta. Não foi apenas mais um elogio vazio ou um convite para um café que já sabíamos recusar. Dessa vez, ele não estava na porta; nos esperou no meio do corredor estreito que levava aos fundos.

— Dona Maria — ele disse, com a voz mais rouca e baixa. — Eu recebi uma encomenda... uma coisa que veio de longe, de família. É pesada e está lá no quarto dos fundos, aquele que faz divisa com o de vocês. Preciso que a senhora me ajude a decidir o que fazer com ela. Mas tem que ser agora, e só a senhora. A menina não pode ver, é coisa de adulto, sabe como é?

Ele não sorria. As moscas pareciam mais agitadas ao redor do seu rosto suado. Minha mãe estancou o passo, segurando minha mão com tanta força que meus dedos doeram.

— Agora não posso, Seu Manoel. Tenho um compromisso urgente e a Daniela não fica sozinha — ela respondeu, com a voz firme, mas seus olhos já buscavam a segurança da nossa porta.

Ele não insistiu, o que foi ainda mais estranho. Apenas deu um passo para o lado, permitindo nossa passagem, mas ficou nos encarando até entrarmos. Aquele convite para um cômodo trancado, sem testemunhas, ficou vibrando no ar.

Quando a situação aconteceu, era época de Carnaval — algo que ele adorava. Ele amava ver os desfiles das escolas de samba com o volume super auto, colocava músicas em um som velho e bebia MUITO. Era o nosso segundo Carnaval naquela casa, então sabíamos que ele receberia visitas da família aproveitando os dias de folga. Nós já conhecíamos os amigos, filhos e noras dele; passavam poucos dias ou faziam uma visita breve e iam embora. Nesses períodos, algumas vezes até conseguíamos passar pelo portão barulhento sem sermos incomodadas.

E naquele ano não foi diferente. A música de Carnaval estava alta, ouvíamos muitas risadas e o tilintar dos copos em brindes. Por uma semana inteira, isso foi bom: o barulho incomodava, mas minha mãe conseguia entrar em casa sem o desconforto de um homem de 1,95 m de altura enchendo o saco.

Minha mãe sempre teve o lado espiritual muito forte. Desde menina, ela ouve, vê e sente coisas que as outras pessoas não percebem, e os sonhos são sua melhor forma de receber avisos sobre o que acontecerá em um futuro próximo. Dessa vez, não foi diferente.

— Daniela, eu tive um sonho estranho.

— Hum? — perguntei, tentando parecer apenas curiosa, mas já estava com medo. Sempre que ela falava dos seus sonhos, acontecia. Era uma premonição. E eu odiava cada uma delas.

— Sonhei que havia muitas pessoas aqui em casa, bebendo, rindo. E uma das mulheres dizia: “Ele não fez a função dele com ela, então eu o levei embora.” E essa mulher sorria de uma maneira muito estranha, Daniela. Do mal mesmo.

— A senhora sabe quem é essa mulher ou esse homem? — Ao mesmo tempo, minha mente corria: Quem é ele? O que ele deveria fazer com ela? Quem é essa ela? - Perguntei esperando, com toda a minha fé, que não tivesse a ver com a gente — e, principalmente, comigo.

— Não, não conheço nenhum, mas a energia era de coisa ruim. Muito ruim. Acho que vai acontecer alguma coisa.

— O Seu Manoel sempre tenta conversar com a senhora e te levar para dentro de casa. Será que pode ser ele?

— Não. Ele é inconveniente, mas não acho que tentaria algo ruim. Eu não entro lá porque não se pode confiar, você sabe.

Eu entendia que minha mãe não podia falar sobre essas coisas com as outras pessoas, mas sentia tanto medo quando ela tocava no assunto... Eu ficava paranoica sempre que ela mencionava seus sonhos e, muitas vezes, preferia não fazer perguntas para não piorar o que eu já estava sentindo: pavor.

Na segunda semana, tudo começou a ficar muito estranho. O Seu Manoel não aparecia, mas as supostas visitas ainda pareciam estar na casa, e um cheiro horrível e forte tomou conta do lugar. Procuramos na nossa casa, no quintal, lá na área das árvores, tentando descobrir se havia algum bicho morto, mas não achamos nada. A TV da casa dele continuava ligada, passando a programação normal de um canal aberto; as risadas altas também permaneciam, mas o odor já estava repulsivo. Era impossível ele e os convidados não terem notado. Para piorar, apareceram varejeiras. Com certeza, tinha algo podre no perímetro.

— Daniela, assim não dá — disse minha mãe. — Eu sei que ele ainda está curtindo lá com as visitas, mas a gente não pode ficar aguentando esse cheiro. Vai lá na casa dele, chama e pede para ele procurar de onde está vindo isso. Mas não entra na casa dele, viu? Fica do lado de fora! Se ele te chamar para entrar, fala que eu estou te esperando.

Sempre fui muito tímida e me sentia envergonhada de chamá-lo em uma casa cheia de gente, mas realmente o odor era absurdo. Fui até o portão e gritei o nome dele dali mesmo. Sem resposta.

Chamei mais alto, pensando que a TV não o deixava me ouvir. Sem resposta.

Dei alguns passos em direção à porta, com medo de entrar, e chamei ainda mais alto. Nada.

Tomei coragem e avancei até a porta da frente. O odor, antes apenas repulsivo, agora parecia uma parede física que me impedia de avançar. Olhei para dentro e lá estava ele, espalhado no sofá. Estava sem camisa, a barriga imensa apontada para o teto e uma perna pendendo para o chão.

O que me paralisou, porém, foi a boca. Havia algo ali, uma forma esférica e escura que parecia uma fruta podre — uma laranja preta, pensei na minha inocência de treze anos. E as moscas... elas não voavam mais ao redor dele; elas formavam uma crosta sobre sua pele, entrando e saindo daquela fruta escura em seu rosto. Chamei seu nome mais duas vezes, mas a única resposta era o som da TV, alto demais.

Voltei correndo para os fundos.

— E aí? Falou para ele procurar?

— Mãe, acho que ele está dormindo no sofá, mas... ele está estranho. Tem uma laranja preta na boca dele. Ele nem se mexeu.

— Laranja preta?

— É... Eu acho que é uma laranja, pode ser outra fruta. Ele devia estar comendo e, sei lá, dormiu?

— Ele não come coisa saudável, Daniela. Só pegava fruta para dar para a gente.

— Não sei então o que pode ser. Só sei que ele não se mexeu e ninguém apareceu quando eu chamei.

— Como não? E essas risadas que a gente estava ouvindo quando chegou, e que agora sumiram?

— Não sei, acho que podem estar dormindo no quarto.

— Mas essa laranja? Isso está estranho. Volta lá e bate no braço dele, faz ele acordar.

— Não quero... Estou com medo.

Ela me olhou feio, mas sabia que eu já tinha sido corajosa na primeira vez e não quis brigar comigo. Então ela mesma foi. Chamou do lado de fora: sem resposta. Caminhou até a porta e o viu. Passou pelo batente, entrando na casa, enquanto eu me mantive do lado de fora.

Acompanhei seus passos com os olhos e, segundos depois, a vi sair completamente desnorteada, como se sua alma tivesse sido arrancada e recolocada de qualquer jeito no corpo. Ela cruzou o portão barulhento olhando ao redor, mas parecia não enxergar nada ao mesmo tempo. Estava fora de si. Eu falava com ela, mas ela não me ouvia. Apenas a segui enquanto ela tropeçava nos próprios pés, sem rumo.

Do outro lado da rua, ela avistou uma casa com a porta aberta. Nunca tínhamos falado nada além de um "bom dia" ou "boa tarde" para aquela família. E, de repente, nós a invadimos.

Lembro-me de as pessoas olharem para a gente sem entender nada.

— O que foi? — perguntou uma mulher branca.

— Quem é essa? — perguntou uma mulher morena.

— É a vizinha aqui da frente — disse a esposa da família.

— O que foi? Aconteceu alguma coisa? — O único homem da casa estava de pé, caminhando até a porta e olhando para fora.

— Ela está tremendo.

— O que aconteceu? Alguém assaltou vocês?

— Não — respondi para o homem, que me olhava e depois fitava o lado de fora da casa.

— Alguém tentou alguma coisa com ela?

— Acho que não — respondi, mas eu também não sabia o que tinha acontecido no pouco tempo em que ela ficou dentro daquela casa.

— Fala, mulher! Por que tu tá assim? — disse uma das mulheres, impaciente.

— Não grita com ela, não tá vendo que ela está nervosa? Pega um copo de água para essa mulher, pelo amor de Deus! — interveio o homem.

Alguém se levantou e trouxe um copo de água para a minha mãe. O vidro tremia na mão dela; ela ofegava, tentava falar, mas nada saía. O copo batia contra os seus dentes, produzindo um tilintar metálico enquanto ela tentava, em vão, moldar as palavras.

— Foi na casa do Seu Manoel — eu disse.

O homem me olhou assim que falei.

— O que aconteceu lá?

Eu dei de ombros. Eu não fazia ideia do porquê de minha mãe estar daquele jeito. Será que ele estava pelado quando ela entrou? Ele tentou alguma coisa? Eu deveria ter entrado com ela. Eu devia ter sacudido ele, assim ela não estaria desse jeito.

— O que ele fez com você? — perguntou o homem, encarando minha mãe, que ainda não conseguia emitir um som.

A mulher que havia se mostrado impaciente soltou um estalo de língua, os braços cruzados:

— Não sei por qual motivo ela estaria tão nervosa. É óbvio que esses dois têm um caso. Ela deve estar é querendo chamar atenção. Tá querendo o meu marido agora?

— Para de falar merda, Fátima! — o marido gritou, irritado com o cinismo da esposa que assistia a tudo encostada no batente, destilando veneno.

— Mas você é uma peste mesmo, não é? — interveio uma mulher mais velha, tentando amparar minha mãe. — Todo mundo sabe que o velho a perseguia, mas ela sempre fugia.

Minha mãe finalmente conseguiu moldar um som, uma voz fraca que parecia vir de muito longe:

— Seu... Seu... Manoel... Ele... Ele...

— Vai lá no orelhão chamar a polícia. Tenho certeza de que com a polícia essa mulher vai abrir a boca — resmungou a esposa. Eu não me lembro do rosto dela hoje em dia, mas guardo raiva dessa vaca até hoje.

O marido, vendo que minha mãe estava impossibilitada de dar respostas concretas e que eu não ajudaria em nada, resolveu ir até lá.

— Eu vou lá ver se descubro o que aconteceu.

— Fernando, você vai fazer o quê? Invadir a casa do velho? Por causa dela? Ela nem falou o que aconteceu, deve estar pensando ainda na mentira que vai inventar!

— Você é insuportável, Fátima. Fecha essa boca pelo menos uma vez na vida — ele rebateu.

Fernando pegou um guarda-chuva grande de trás da porta e saiu. Voltou pouco tempo depois, pálido, sem o objeto nas mãos.

— O Seu Manoel tá morto.

Silêncio.

Constatação.

— O Seu Manoel está morto. A língua dele... está toda para fora, preta e enrolada.

Foi nesse instante que o meu mundo girou. Não era uma fruta estragada. Era o músculo da língua, expelido pela pressão da decomposição, entregue ao banquete das moscas.

— Mas é estranho... — continuou Fernando, o tom de voz vacilante. — Eu ouvi uma mulher dando risada enquanto eu estava na sala... Eu sei que não era a TV. Procurei na casa inteira e não tinha ninguém, olhei no quintal e nada. A risada era tão clara, alta e feia... Parecia muito que estava no cômodo ao lado.

Minha mãe me olhou, e nós duas ficamos paralisadas.

Pouco depois, a polícia e a ambulância chegaram. Foi constatada morte por causas naturais; ele já estava morto há dias. Não dormimos em casa naquela noite. Quando já estávamos deitadas na cama de quem nos acolheu, minha mãe puxou assunto.

— Ouviu quando o vizinho disse que escutou uma mulher dando risada? — ela sussurrou, a voz quase sumindo na penumbra do quarto.

— Uhum — respondi, sentindo um calafrio que nenhuma coberta seria capaz de espantar. Eu sabia que o sono não viria tão cedo.

— Acho que o sonho era sobre ele, Daniela.

Houve um silêncio pesado, interrompido apenas pelo som da nossa respiração descompassada.

— Aquela mulher... ela queria que ele fizesse algo terrível para alguém. E como ele não teve coragem de cumprir a função, ela o levou embora.

— O que será que ela queria, mãe?

— Olha... para ele preferir a morte a ter que fazer... devia ser algo perverso.

— Será que era com a gente?

— Acho que sim — ela concluiu, os olhos fixos em um ponto vazio na parede. —  Provavelmente comigo.

Eu não disse mais nada. Fechei os olhos e, por um instante, o cheiro de cigarro barato e o zumbido de mil moscas pareceram preencher o quarto de hóspedes. O Seu Manoel não era um monstro, mas algo muito pior o havia escolhido para ser um. E, no fim das contas, o que nos salvou não foi o portão barulhento ou as nossas recusas, mas o último vestígio de humanidade que restava naquele homem.

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