
A sacola pesada
Clarisse já estava exausta quando saiu do trabalho então quando saiu faculdade pouco restava de atenção nela. A única coisa em sua mente era sua cama quentinha e seu travesseiro fofo, e ainda faltavam uns longos quarenta cinco minutos. Ela fez seu caminho sozinha como era sua rotina, virou a esquina com ruas completamente isoladas, cercadas por lojas já há muito fechadas. As ruas eram pouco iluminadas e bem silenciosas nesse horário. Depois de mais um bocejo a jovem elevou os olhos e viu uma pequena e magra idosa com uma sacola que parecia pesada em sua frágil mão. Ao se aproximarem, Clarisse sabia que jamais poderia dar as costas para tal gentileza. Parou na frente da mulher, já estendendo a mão com um sorriso cansado nos lábios.
– Por favor, senhora. Deixe-me ajudar. Parece muito pesado.
A velha pôde ver naquela rua pouco iluminada as olheiras abaixo dos olhos da jovem a sua frente e as lágrimas resistentes dos olhos depois de mais um bocejo.
– Ó, querida. Não precisa. - Já entregando a sacola nas mãos da garota.
– Faço questão. Pra onde estamos indo?
– Ali no ponto de taxi, fica há umas duas quadras daqui. Você consegue me ajudar até lá, meu bem?
Clarisse sentiu um leve arrependimento de não ter feito outro caminho essa noite, mas as opções eram ruas ainda menos iluminadas com muitos postes apagados. Mas a velha era realmente de idade avançada, andava lentamente, a voz dela era doce, a sacola estava pesada até pra ela, imagina pra essa pobre idosa? E segundo o aplicativo com os horários dos ônibus ela conseguiria fazer esse gesto e com uma leve corridinha estaria no dentro do ônibus.
– Sim. Sem problemas. São os taxis depois daquela pracinha, não é? Aquela que tem um campinho de futebol. É pertinho. São umas três quadras. Dá pra ir, sem problema nenhum.
– Você é gentil, querida. Qual seu nome?
- Clarisse.
– Ah, que nome lindo. Combina com esse seu rostinho delicado. Parece com a filha da minha amiga, estou saindo da casa dela agora. Ela me deu umas roupas que ela e a filha não usavam mais. Aí ela tinha acabado de fazer um bolo de aipim e um cafezinho. E sabe como é, quando duas velhas se sentam pra conversar a hora corre.
– Ah sei. Eu sempre perco a noção do tempo quando estou conversando com minhas amigas, ou minha avó. Quando vê, puff! Já está escuro e ainda tem assunto pra falar.
A velha sorriu acentuando ainda mais as filhas em seu rosto.
– Isso mesmo! E a Conceição sabe receber visita como ninguém, menina. A gente fica na mesa da cozinha, aquele bolinho competindo com o café sobre quem tem o melhor cheirinho. Dou boas gargalhadas com ela. Somos amigas há 16 anos já, acredita?
– Nossa, tudo isso?! Espero que eu e minhas amigas também sejamos assim. Eu sou a Conceição, sabe. Eu que recebo minhas amigas em casa, mas eu não faço as coisas. Não tenho esse talento, senhora .... Acho que não sei seu nome.
A velha sorriu olhando pra Clarisse, dando uns tapinhas carinhosos e quase sem forças no braço dela.
– Lourdes, meu bem.
– Dona Lourdes! É o mesmo nome da minha bisa. Então no caso eu sou sua amiga, compro bolinho, torta, suco, chocolate. De tudo. Pra deixar todo mundo feliz e alimentado.
– Então você é exatamente igual a Guiomar mesmo! Ela sempre sabe como receber a gente como se fosse receber a própria rainha da Inglaterra.
– Sim, e a Guiomar? É uma amiga?
– Ué, querida. Acabei de falar que acabei de sair da casa dela.
– Ah, eu acho que ouvi Conceição.
– Hã? Ah. Sim. É ... é que ela tem dois nomes, sabe? Como se diz, menina ... Esqueci.
– Composto.
– Isso! Composto. Você é inteligente, né? Então eu acabo chamando pelos dois nomes. E sou velha, né? Sabe como é. A memória vai embora.
Clarisse achou ter percebido uma tensão na senhora quando percebeu que falou outro nome, os olhos levemente arregalados, um susto. No entanto, não deu atenção pra isso. Suas avós e bisas sempre se esqueciam de muitas coisas também. Até ela, que dirá uma senhora.
– Deixa eu fazer uma ligação, menina. Minha filha não dorme enquanto eu não estiver dentro da casa. Parece até que ela é minha mãe e eu a filha sem juízo que ela trouxe ao mundo.
A velha sorriu e pegou o celular na bolsa pequena demais que carregava no ombro. Clarisse aproveitou para pegar o celular e ver se daria realmente tempo de correr ou perderia o ônibus essa noite. A senhora andava mais devagar a cada passo, mesmo sem o peso.
– Oi, filha. Estou ligando pra avisar que estou aqui na Rua Francisco. Quase atravessando a Rua Trabulsi, sabe? Quase perto do ponto de taxi. E tem uma mocinha, bem jovem comigo. É linda. Deve ter o que, meu bem? Dezenove?
– Uhum! Dezenove.
– Sabia! É uma jovenzinha linda, filha. Dezenove aninhos, cabelo preto, pele branquinha, deve ter 1.60 de altura, por aí. E é bem forte, está carregando a sacola pesada e não reclamou nenhuma vez. Apesar de trocar de um braço pro outro algumas vezes. Tadinha. Um anjinho lindo e educado. Você vai gostar.
Clarisse sorriu sem graça. Se perguntando o motivo de tantas características físicas informadas a filha. Chegou a pensar que por algum motivo louco dona Lourdes poderia estar se sentindo ameaçada, com medo de algo aconteceu e estava dando uma descrição completa de quem a acompanhava. Ela encerrou a ligação e manteve o celular em sua mão.
– E você está saindo da faculdade, imagino. O que estuda, querida?
Pouco antes de chegar a segunda esquina do caminho até a pracinha, uma mulher de bonita, alta e de aparência serena entrou no caminho contrário ao delas, olhando nos olhos de Clarisse e passou entre elas. Sem parar. Falou em alto e bom som.
– Vai embora. Não ajude.
Clarisse parou de andar e olhou pra trás.
– Oi?
Dona Lourdes parou de andar ao ver Clarisse se virar pra trás.
– O que, querida?
– Aquela mulher. Achei que ela tinha falado comigo.
– Que mulher, meu bem? Não tem ninguém aqui.
– Como assim, dona Lourdes? Aquela mulher que acabou de passar por nós.
– Vai embora! AGORA! Não ajude!
Ela ouviu de novo a voz da mulher que continuava andando tranquilamente sem olhar pra trás em nenhum momento. Clarisse não entendia como ela podia ver uma pessoa que literalmente passou no meio delas e a velha não ter visto. Ela finalmente olhou para a idosa e a tela do celular acendeu. Uma ligação em andamento com o nome FERNANDO. Ela deu um passo pra trás e olhou novamente para a mulher que andava atrás dela, mas ela não estava mais lá.
“Como? Ela sumiu? Como?! Só tem loja aqui! Cadê ela? O que está acontecendo?”
– Querida, está tarde. Você deve estar muito cansada. Ninguém passou aqui. Venha, vamos. Tenho que pegar meu taxi logo. Venha, meu bem.
Clarisse voltou a andar com as mãos da senhora um pouco firmes demais em seu pulso.
– Não fique nervosa, Clarisse. Essa região é segura. Não se preocupe com bobagem.
– O que? Não. Não. Eu sei. É que ... Não é medo. Só que é muito estranho. Como só eu vi ela? Isso não é normal.
– Ô meu bem. Você deve assistir muita TV, não é? Essas notícias ruins dos jornais. Deixam a gente meio doida. Não se preocupe com nada. Venha, não pare de andar. Vamos, sim?
Clarisse nunca teve uma experiência espiritual, mas isso claramente parecia ter sido uma. Ela deu um sorriso falso sentindo o olhar de Lourdes sobre ela, olhou uma última vez pra trás e antes de atravessar, olhou atentamente a praça. O lugar era bem pouco iluminado. E achou ter visto algo se mexer na escuridão levemente distante. E então olhou para os lados. Um carro preto com a porta traseira completamente aberta. E então uma fumaça. Cigarro. E finalmente seus olhos entenderam. Duas pessoas no escuro, alguém fumando, a porta escancarada, um caminho que ela jamais faria se não fosse a velha com a sacola tão pesada. O nome masculino na ligação que ela disse que era pra filha. Ela travou no meio da rua, a senhora falava algo que ela não prestou atenção. Suas pernas estavam bambas. Ela sentiu um frio inexplicável na barriga. Suas mãos começaram a suar. Por um segundo pensou que iria desmaiar. E ouviu a voz em sua mente novamente.
“Não ajude. Vai embora. Agora. Não é uma ajuda. É uma armadilha! É um sequestro. O meu sequestro”
– Escuta, eu vou perder meu ônibus. A senhora pode seguir daqui sozinha.
– Negativo. A sacola está pesada demais pra mim. Estamos perto, venha. Não seja maldosa com uma idosa.
– Estou indo embora.
Lourdes a segurou firme pelo braço, as unhas marcando a pele da jovem.
– Clarisse, deixe de ser medrosa. Como poderia me ajudar só até metade do caminho? Foi assim que seus pais te criaram? Não tem motivo pra ter medo. Venha. Anda logo.
Clarisse soltou a sacola nos pés da velha que ao sentir a dor logo a soltou, ela deu um passo pra trás e olhou de volta para a praça. Eles não estavam mais no escuro. Estavam mais perto. Usavam balaclava preta. Não corriam, só andavam devagar. A menina puxou forças que nem sabia que tinha, se virou e correu pelo caminho que fizeram até ali juntas.
– Clarisse?! Volta aqui! Agora!
A jovem garota sentia seus batimentos em seus ouvidos, suas pernas e braços estavam quentes, ela não olhou pra trás, só corria o mais rápido que pôde.
– VOCÊS NÃO VÃO FAZER NADA?! – Gritou Lourdes, Clarisse ouviu, mas não parou em nenhum momento. Correu as três quadras como se fosse uma atleta olímpica. Chegando próximo ao ponto viu um ônibus se aproximando e deu sinal antes mesmo de ver qual era o ônibus. Depois de embarcar viu que era o ônibus certo. Quando se sentou sentiu como suas panturrilhas queimavam. Como seus pulmões pediam socorro. Sua garganta completamente seca. Seus dedos tremiam tanto que ela não acertava os locais para ligar pra alguém.
Quando chegou no ponto de descida lá estava sua irmã e sua mãe, como ela havia pedido.
– Tenho certeza que a mulher era um anjo, minha filhinha. Um anjo te dando um livramento, meu bebê. Meu doce bebezinho. Calma. Estamos aqui agora.
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